A Casa que foi (Re) Tomada

No conto Casa Tomada do escritor argentino Julio Cortázar, existe uma casa que guarda dois irmãos que vivem uma rotina monótona entre tecer o tricô e a literatura francesa. Entretanto, em certo dia, um ruído misterioso, que o conto não revela natureza ou origem, espanta os donos da casa para sua parte da frente (na versão em mãos).

Em primeiro momento, a leitura induz a pensar que talvez sejam pessoas ocupando politicamente o lugar, em um processo de retomada de mobília não utilizada pelo contexto histórico-político da América Latina, especialmente na Argentina, com o peronismo levando em suas raízes o movimento contra a especulação imobiliária.
Nesse sentido, ainda que o conto tenha seu teor fantástico, ele carrega esse ruído-outro, um personagem sem nome e rosto, que causa os pontos de tensão na narrativa. Ele vai tomando o espaço, pouco a pouco, fazendo os personagens se prenderem na monotonia de conviverem um com o outro. Irmãos que têm relações conjugais? O conto flerta com o desejo enclausurado, conforme o ruído-outro toma o espaço e faz os dois ouvirem seus próprios barulhos em cada momento da rotina.

O tricô que muda de cor, conforme a narrativa vai tomando outras tonalidades, revela um manifesto diário do que se perde conforme se vive: a própria mortalha. A leitura permite conectar outros textos como a Moça Tecelã, que cria seu próprio espaço conforme tece, ação similar de Irene que tece conforme a casa vai sendo tomada.
Proposital ou não, Cortazar tece uma narrativa sobre ocupar o espaço pelo ruído-outro, que com certa ironia, empurra dois irmãos a conhecerem a monotonia entre pontos de bordar e literatura francesa até estarem fora de seu ambiente.
Esse movimento simula as ocupações compulsórias que se vivem nos tempos presentes como os povos indígenas sendo arrastados de seus territórios a força por indústrias que chegam com o ruído de seu maquinário tomando o espaço do viver e existir dessas pessoas.
Também pode revelar o contrário, quando se existe algo tomando seu espaço de vida e o sujeito decide permanecer, ou melhor, ocupar aquele espaço até que seja derrubado dali.



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