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A Casa que foi (Re) Tomada

há 7 horas
2 min de leitura



Luis Buzzato, colunista da Revista Especular






No conto Casa Tomada do escritor argentino Julio Cortázar, existe uma casa que guarda dois irmãos que vivem uma rotina monótona entre tecer o tricô e a literatura francesa. Entretanto, em certo dia, um ruído misterioso, que o conto não revela natureza ou origem, espanta os donos da casa para sua parte da frente (na versão em mãos). 

 


Escritor Julio Cortázar (1914–1984), fotografado em Paris por Anne de Brunhoff (1976)
Escritor Julio Cortázar (1914–1984), fotografado em Paris por Anne de Brunhoff (1976)

Em primeiro momento, a leitura induz a pensar que talvez sejam pessoas ocupando politicamente o lugar, em um processo de retomada de mobília não utilizada pelo contexto histórico-político da América Latina, especialmente na Argentina, com o peronismo levando em suas raízes o movimento contra a especulação imobiliária. 

 

Nesse sentido, ainda que o conto tenha seu teor fantástico, ele carrega esse ruído-outro, um personagem sem nome e rosto, que causa os pontos de tensão na narrativa. Ele vai tomando o espaço, pouco a pouco, fazendo os personagens se prenderem na monotonia de conviverem um com o outro. Irmãos que têm relações conjugais? O conto flerta com o desejo enclausurado, conforme o ruído-outro toma o espaço e faz os dois ouvirem seus próprios barulhos em cada momento da rotina. 

 

IIustração da artista plástica Norah Borges (irmã de Jorge Luis Borges) feita para o conto "Casa Tomada"
IIustração da artista plástica Norah Borges (irmã de Jorge Luis Borges) feita para o conto

O tricô que muda de cor, conforme a narrativa vai tomando outras tonalidades, revela um manifesto diário do que se perde conforme se vive: a própria mortalha. A leitura permite conectar outros textos como a Moça Tecelã, que cria seu próprio espaço conforme tece, ação similar de Irene que tece conforme a casa vai sendo tomada. 

 

Proposital ou não, Cortazar tece uma narrativa sobre ocupar o espaço pelo ruído-outro, que com certa ironia, empurra dois irmãos a conhecerem a monotonia entre pontos de bordar e literatura francesa até estarem fora de seu ambiente.

 

Esse movimento simula as ocupações compulsórias que se vivem nos tempos presentes como os povos indígenas sendo arrastados de seus territórios a força por indústrias que chegam com o ruído de seu maquinário tomando o espaço do viver e existir dessas pessoas.

 

Também pode revelar o contrário, quando se existe algo tomando seu espaço de vida e o sujeito decide permanecer, ou melhor, ocupar aquele espaço até que seja derrubado dali. 

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