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As Duas Mortes do Rei Arthur: sobre virtude e felicidade

há 10 minutos
3 min de leitura









A Távola Redonda, segundo a série Merlin (BBC)
A Távola Redonda, segundo a série Merlin (BBC)

Epicuro, filósofo grego antigo:

 

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém é jamais demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem firma que a hora de se dedicar à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos par alcançá-la. (Epicuro, 2002, p. 20-23).

 

Epicuro escreve a Meneceu, uma Carta Sobre a Felicidade, como Aristóteles, no caso de Ética a Nicômaco, outro trabalho às virtudes e felicidade. Ainda Epicuro:

 

(…) a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originam todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz, sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. (Epicuro, 2002, p. 40-47)

 

Quando Epicuro fala de Prudência, incluindo beleza e justiça, está falando de Ética: campo da filosofia que estuda a moral. Filosofar é preciso, neste contexto. E a virtude não existe apenas para si.

 

Há uma ética coletiva. Quando um país inteiro insiste em votar em candidato sem projeto, sem visão social, sem respeito a direitos humanos: tem-se problemas de (auto)ética coletiva. Toda cultura possui desigualdades (Demo, 1987, p. 11). Elas podem vir da diversidade, mas outras podem vir de inconsistência ética.

 

Não há felicidade sem relações saudáveis, pois virtude não é solidão. Por conseguinte, a falta de virtude de quem está ao nosso redor sabota a felicidade; e a nossa falta de virtude atrapalha a felicidade de todos ao nosso redor, visto estarmos conectados. Trata-se de princípio ecológico: toda biosfera é integração viva, rede de entidades, vivas e não vivas, como uma unidade, não só unidade de sentido, e sim uma unidade existencial plena: a Terra é viva (Lovelock, 2010).

 

Recordemos o mito do Rei Arthur: criou Camelot, lugar de virtude, símbolo da justiça derivada da virtude, sob forma de governo à vida, sob as asas da espada mística que era mais forte que todas as demais espadas.

 

A espada, Excalibur, significa “quebra aço”. A espada mais forte, poder e virtude conectados a quem a empunha. Sendo espada de Arthur por direito mítico, tirada da pedra apenas por ele, oferecida pela terra em si: ali se criava a figuração o escolhido, pela propriedade de quem se é, único adequado à sua missão - em essência ética.

 

A Morte d Rei Arthur, por John Garrick
A Morte d Rei Arthur, por John Garrick

Contudo, a vida não é só felicidade: houve a traição de seu Primeiro Cavaleiro, Lancelot, com sua rainha - ninguém escolhe quem ama. Em decorrência, Arthur vive morte em vida. Além disso, foi literalmente morto pelo próprio filho. Entre guerras, traições e mortes, a vida de Arthur termina por golpe do fruto da própria árvore, do tronco e dos ramos da própria existência. Não foram momentos felizes, nem toda fantasia é doce.

 

Quanto as pessoas ao nosso redor, cabe dizer o óbvio, são relevante parte da nossa própria vida como o foi para o rei. Somos relações. Sempre estamos respirando, alimentando o nosso corpo, e em contato com o ambiente. A felicidade é construída, muito pelas virtudes que não se limitam a serem apenas suas, mas quando cuida de ser virtuoso, se está contribuindo também com uma proposta mais ampla, global, a partir das pessoas que lhe estão próximas, às quais influencia pela ação.

 

Voltando a Aristóteles, ele dizia que toda virtude pode ser aprendida e construída: formação dos hábitos, repetição consciente e passos que escolhemos dar (Aristóteles, 1991).

  

REFERÊNCIAS:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1991.

 

DEMO, Pedro. Sociologia: uma introdução crítica. 2ª ed. São Paulo: Atlas, 1987.

 

EPICURO. Carta sobre a felicidade: (a Meneceu). Tradução e apresentação de Álvaro Lorencini e Enzo del Carratore – São Paulo: Editora UNESP, 2002.

 

LOVELOCK, James, 1919 –. Gaia: alerta final. Tradução de Jesus de Paula Assis e Vera de Paula Assis – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010. 264p.

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