Quando o estranho atravessa as fronteiras da realidade: o Conto da Aia (1990) e Forest, de Ilya Kharkow
- Luis F. Buzzato

- há 2 horas
- 3 min de leitura

Recentemente, descobri um autor extremamente cativante chamado Ilya Kharkow, que tem uma visão ímpar sobre corpo, território e as consequência da violência, especialmente para os homens, nos quais ocupam espaço de privilégios, mas são atravessados pela imposição da masculinidade.
Não é uma novidade discutir o que a masculinidade representa: homens que não choram, que não expressam sentimentos, que tem de ser violentos, que tem de ser fortes o tempo todo... a lista segue. Qual menino nunca escutou: “Engole o choro! Homem não chora!” E sentir aquela sensação vazia, uma faca atravessando a ferida já aberta.
Em um espaço de relato pessoal, meus pais eram cristãos e gostavam de me punir em diversas formas: retirem os brinquedos dele, não o deixem assistir o desenho de menina, não o deixe ler livros de capa rosa ou “de bruxaria”.
Em certo ponto, até livros eram proibidos. Nenhum exemplo singular serve para o coletivo, porque não é pragmático, mas quando se existe vários relatos da opressão da masculinidade, entendem-se que além de firmar um pacto violento em massa, os homens perdem sua humanidade no processo. Entretanto, o autor que discuto aqui decide não barganhar sua humanidade e produz uma escrita de fragmentos.
Essa estratégia de fragmentação gera um fenômeno de estranheza, quando a narrativa parece se descolar da realidade e logo voltar a ela, efeito parecido com as narrativas de Edgar Allan Poe.

Distribuído gratuitamente no site do autor (baixe-o aqui), no contexto da guerra Ucrânia-Rússia, o conto Forest (Floresta) trabalha com dois rapazes que são pegos compulsoriamente para fazerem parte do exército. Contexto este muito comum na guerra da Ucrânia, segundo os relatos do autor em entrevistas. Entretanto, um deles tem uma caneta e um papel. E escreve.
Até despertar a curiosidade do outro, que começa a ouvir mais sobre isso. A história se fragmenta, tornando-se uma fuga de dois rapazes para fora do contexto da Guerra, até o leitor retornar à posição de que os dois nunca deixaram de fato o exército.
Esse contexto de estranheza da narrativa, que causa a queda da expectativa na leitura, traz exatamente a mesma sensação das primeiras cenas da primeira adaptação do Conto da Aia, de 1990: as mulheres sendo pegas, forçadas a cumprir papéis de reprodução e cuidado.
Em contextos muito diferentes, ambos os autores estão trazendo ao leitor um efeito de queda: por que a realidade se parece tanto com o que acontece agora? No caso de Kharkow, de fato, existe uma guerra acontecendo, mas quando coloca o contexto em tensão com os sentidos do leitor, a narrativa ganha sentido de estranho.

No Conto da Aia (1990), atravessar a fronteira é muito importante para as mulheres inseridas na ditadura de Gilead. Inclusive, a palavra [fronteira] repete-se muito na narrativa, como uma imagem impossibilitada às personagens. Em Forest (2026), Kharkow mostra a imagem [fronteira] como uma possibilidade, um idílico de salvação e, ao mesmo tempo, uma provação material de sobrevivência. Não existe descanso depois dela, depois de atravessá-la.
Em cenários de desespero, uma aia precisa atravessar uma fronteira e um homem precisa fugir do exército. Em níveis de privilégio e posições, ainda assim, os gêneros são construídos para se sentirem oprimidos, embora isso pareça óbvio na tessitura da realidade é preciso que escritores como Atwood e Kharhow escrevam com a estranheza para então notarmos que a violência é uma lição aprendida, tanto por quem a sofre quanto por quem a produz.
REFERÊNCIAS:
A HISTÓRIA DE UMA SERVA, Direção: Volker Schlondorf, Produção: Alex Gartner, Daniel Wilson, Eberhand Junkersdorf e Wolfgang Glattes, Alemanha, Discovery Global Sci-Fi, 15 de fevereiro de 1990. Filme.
KHARHOW, Ilya, Forest, 2026, Independente.



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